O projeto Redwood Hill Townhomes oferece residências de dois e três quartos destinadas a pessoas cuja renda mal ultrapassa os $20.000 por ano, algo que muitos consideram um oásis em um mercado onde os preços médios das casas ultrapassam $1.000.000.
Muitos o consideram um oásis no meio do deserto. O recém-inaugurado complexo residencial Redwood Hill Townhomes, em Oakland, conta com 28 unidades de dois e três quartos reservadas para residentes cuja renda esteja entre 30% e 50% da renda média da região, que atualmente é de $73.100 por ano.
Em outras palavras, uma família que ganha apenas $21.930 por ano terá prioridade para alugar uma dessas residências novinhas em folha, que contam ainda com área de recreação infantil, lavanderia, pátio, estacionamento e estão localizadas em uma área com fácil acesso ao transporte público, restaurantes e áreas comerciais.
Mas os benefícios não param por aí. Os aluguéis dessas moradias serão fixados de forma a não ultrapassarem 30% da renda de seus moradores, pelo que, em alguns casos, poderão chegar a apenas $548 por mês: para se ter uma ideia, o aluguel médio de um apartamento de dois quartos em Oakland é atualmente de $2.624, de acordo com o site RentCafe.com.
Em uma região onde os preços das moradias ultrapassam um milhão de dólares e, ao mesmo tempo, há cada vez mais pessoas em situação de rua e indigentes nas ruas, esse novo complexo habitacional, construído com o apoio da cidade de Oakland, do condado de Alameda e do Departamento de Habitação da Califórnia, parece, de fato, um lar de sonho.
No entanto, esse tipo de projeto também coloca em perspectiva a gravidade da crise habitacional e o impacto — para muitos, mínimo — que eles podem ter no curto prazo. No caso específico do Redwood Hill Townhomes, um total de 4.000 moradores de Oakland se inscreveram na lista — que já foi encerrada — para ter a oportunidade de alugar uma das 28 unidades. Quando a prefeita de Oakland, Libby Schaaf, participou da cerimônia de inauguração na semana passada, ela destacou a complexidade do projeto e a necessidade de que haja mais iniciativas como essa.
“A moradia acessível é para as pessoas. Hoje inauguramos o Redwood Hill, que está reservado para famílias, pessoas que viveram nas ruas e sobreviventes de violência doméstica. Essa é a parte inspiradora”, escreveu Schaaf no Twitter. “Por outro lado, levou duas décadas para ser concluído, enfrentou muitos obstáculos por parte dos vizinhos e recebeu 4.000 inscrições para apenas 28 vagas”, acrescentou ela.
Reportagens da mídia local indicam que, pelo menos desde 2003, a Prefeitura já vinha considerando projetos de moradia acessível nesse terreno da Avenida Calaveras, próximo à rodovia I-580. A construção foi liderada pela SAHA, uma incorporadora imobiliária focada em empoderar as classes mais carentes por meio de moradias populares.
No Vale do Silício e arredores, berço de milionários e avanços tecnológicos, um dos principais problemas é o das pessoas em situação de rua. Essa região, que abriga as sedes de gigantes como Google, Facebook e Apple, registrou, nos últimos dois anos, um aumento considerável no número de moradores de rua, de acordo com dados preliminares do relatório “2019 Point In Time Count”, um censo bienal sobre pessoas que vivem nas ruas, realizado a pedido das autoridades federais.
Em São Francisco, a população em situação de rua cresceu 31% em comparação com 2017, enquanto no condado de Alameda o aumento foi de 43%. Por sua vez, o condado de Santa Clara registrou um aumento de 31%, mas, se considerarmos apenas São José — a décima maior cidade do país e um dos principais centros do Vale do Silício —, o número salta para 42%.
Por outro lado, enquanto, em nível nacional, uma família precisa ter uma renda anual de $61.453 para poder comprar uma casa pelo preço médio de mercado, na Área da Baía seria quase uma missão impossível financiar uma moradia com esse salário. Em San José, por exemplo, uma família precisaria ganhar cerca de $255.000 por ano para poder comprar uma casa. Em contrapartida, a família média ganha menos da metade desse valor, e o preço médio de uma casa chega a $1,2 milhões.
O panorama é igualmente desolador em São Francisco. Nessa cidade, considerada por muitos a mais importante da Região da Baía, o preço médio de uma casa é de $952.200, e uma família precisaria ganhar quase $199.000 por ano para poder financiá-la.
Para metade dos moradores do Vale do Silício, a grave crise imobiliária é apenas um dos muitos problemas que os levam a pensar em se mudar para uma região mais acessível. À falta de moradia somam-se o trânsito nas estradas, o custo de vida cada vez mais alto e a crescente crise dos sem-teto nas ruas. Uma pesquisa recente revelou que 65% das pessoas considera que a qualidade de vida na região está em queda livre.
Os problemas mencionados acima são tão graves que quase metade (44%) dos moradores da Região da Baía afirmou que, nos próximos anos, há grandes chances de se mudarem para uma cidade que não fique no Vale do Silício. Entre as minorias, o número é ainda maior: 71% dos afro-americanos e 53% dos latinos estão pensando seriamente em deixar de vez a Região da Baía.